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Como comprar felicidade

Como comprar felicidade

 

O consumo contribui para sua felicidade, pois é uma forma de obter satisfação pessoal. Pense na felicidade de tomar um café para aliviar a sensação de sono, de ler um livro para se informar ou se distrair, ou de ir à manicure para receber cuidados. E que tal a felicidade de tirar férias? De trocar de carro? De comprar uma TV nova?

Obviamente, a felicidade obtida por meio do consumo não é tão intensa e duradoura quanto a que sentimos ao conquistar grandes objetivos, como passar na faculdade, casar, ter filhos ou quitar a casa própria. Mas, sendo esses grandes objetivos pouco numerosos ao longo de nosso viver, não é exagero apontar o consumo como nossa fonte mais frequente de felicidade.

Porém, antes de sair gastando alucinadamente em busca de prazer, é importante perceber que não é exatamente o ato do consumo que nos faz felizes. Felicidade é um estado de espírito e não uma reação momentânea a um acontecimento. O que realmente contribui para nosso bem-estar é a maneira com que aproveitamos os acontecimentos em nossa vida.

Em outras palavras, não é o nascimento do filho que nos faz felizes, mas sim a realização de poder criar um descendente. Não é a compra do carro, mas sim a possibilidade de dirigir com mais eficiência, conforto, design e admiração dos amigos. Não é a aquisição do cosmético, mas a sensação de rejuvenescimento. Tão importante quanto adquirir bens ou serviços é poder aproveitá-los da melhor maneira possível. Isso faz com que sejamos recompensados por nossas escolhas.

Entretanto, a falta de planejamento leva muitas pessoas ao consumo sem que tenham real condição de aproveitar aquilo que compram. Quanto mais impulsivo for o consumidor, mais ele terá roupas não usadas no armário, eletrodomésticos pouco aproveitados, férias insatisfatórias, livros mofando sem serem lidos e outros bens mal-escolhidos.

Sem aproveitar suas compras, sua única lembrança de felicidade estará associada ao ato da compra em si e por isso ele tenderá a comprar mais. A impulsividade tende a se transformar em compulsão.

É bastante comum também a situação em que a pessoa, por mais que tenha um padrão de consumo admirável, não se sinta feliz com suas escolhas. Normalmente, isso acontece quando o consumo gera mais frustrações que recompensas.

Um exemplo típico de consumo frustrante é quando alguém não planeja férias com antecedência, mas, ao se ver diante da oportunidade ou do convite para aproveitar férias por vencer, decide comprar o primeiro pacote de viagens que vê pela frente. Independentemente de ser um destino interessante ou não, a pessoa terá de parcelar sua compra, já que não se planejou para isso.

As férias não tiveram espaço no orçamento dos meses anteriores à viagem. Mas, para honrar as prestações assumidas para os meses seguintes, a pessoa terá de eliminar hábitos de sua rotina. Por mais que a viagem tenha sido interessante, cada prestação a pagar será um motivo de arrependimento.

Além disso, não haverá verba para sair com amigos, contar as histórias e as novidades, mostrar fotos. Sem esse convívio, não existirá o desfrute duradouro daquele consumo, que faria a pessoa mais feliz. Mais provável é que o arrependimento de cada prestação a pagar condicione a pessoa, inconscientemente, a não ter pressa para tirar férias novamente.

Seria bem diferente se, meses antes das férias, a pessoa estivesse planejando e poupando. O objetivo definido seria argumento para deixar de lado excessos de consumo.

Poupar não seria um sacrifício, mas sim uma gincana motivada pela expectativa. A realização do sonho seria o fim do processo, não o começo. Ao voltar das férias, com as contas quitadas, além de descansada a pessoa passaria a contar com recursos para socializar e curtir o momento – afinal, não estaria mais poupando. Resultado: felicidade continuada.

Se você quer ser mais feliz, planeje e poupe antes de consumir. Ambicione, conquiste e aprenda a degustar por um bom tempo suas conquistas, no lugar de cultivar o pobre vício em consumo.

 

Gustavo Cerbasi (www.maisdinheiro.com.br) é consultor financeiro e autor de Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (Ed. Gente), Como Organizar sua Vida Financeira (Elsevier Campus) Pais Inteligentes Emriquecem seus Filhos (Ed. Sextante).

Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, em 12/03/2012. Artigo protegido por direitos autorais. Reprodução autorizada desde que citada a fonte www.maisdinheiro.com.br

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